Luizinho do Corinthians

Luizinho do Corinthians

Dia 17 de janeiro de 1998, morria Luizinho, cognominado “O Pequeno Polegar, extraordinário meia-direita corintiano, que tantas e tantas alegrias deu à Fiel. Em face do pouco interesse demonstrado pela mídia pelos fatos e personagens do passado, por ocasião do seu falecimento somente os indivíduos mais velhos lembravam-se dele, isso por ter abandonado sua carreira 30 anos antes. Como tantos outros craques, foi ofuscado pela conquista do Campeonato Mundial de 1958 e pela chamada Era Pelé. Assim são as coisas no Brasil, somente os acontecimentos recentes, aqueles que estão na berlinda e que rendem milhões aos patrocinadores e às grandes agências de publicidade interessam à mídia. Por não estarmos nesse rol, temos a obrigação de fazer emergir a figura desse cidadão íntegro e inesquecível craque de futebol.

Luiz Trochillo nasceu em 7 de março de 1930, na Rua Cachoeira, bairro do Brás. Eram seus Pais: Gabriel Luiz Trochillo e Margarida Bastarrica Trochillo; ela espanhola, ele descendente de espanhóis. Além de Luizinho, o casal teve mais três filhos: Modesto, Tereza e Rafael, este já falecido. Em 29 de novembro de 1952, casou-se com Ruth de Macedo Trochillo. A cerimônia foi realizada na Igreja Matriz da Penha. Da feliz união nasceram seus filhos: Luiz Antonio, Carlos Alberto, Marco Antonio e Patrícia. Recém-casados, durante certo tempo, Luizinho e Ruth moraram no Carrão. Em meados da década de 50, Luizinho comprou um excelente lote de terreno no Tatuapé, nas proximidades do atual Hospital Cristo Rei, e nele construiu um magnífico sobrado. Em 1957, pronta a edificação, para lá se transladou com sua família. Até os dias atuais, d. Ruth vive no local com seus filhos: Marco Antonio e Carlos Alberto. Desde suas núpcias até o dia do seu desaparecimento foi um excelente esposo, um pai exemplar e um devotado companheiro de seus filhos. Não obstante sua simplicidade e modéstia, sua figura irradiava um sentimento de simpatia ao seu redor.

Luizinho, que começou sua carreira em 1943, no infantil do Corinthians, só a encerraria em 1967. Não fosse pela passagem de aproximadamente um ano pelo Clube Atlético Juventus, teria jogado pelo Corinthians 24 anos ininterruptos. Vestiu a camisa do clube do seu coração por 589 vezes, vencendo 359 delas. Disputou 280 partidas pelo Campeonato Paulista, 93 jogos pelo Torneio Rio-São Paulo, 186 amistosos e 64 jogos internacionais. Foi o jogador que mais títulos e troféus ganhou para o Timão. Seu gol mais importante foi o marcado contra o Palmeiras em 1954, que deu ao Corinthians o título de Campeão do IV Centenário.

O Corinthians vinha de um jejum de 10 anos sem títulos. O último campeonato fora conquistado em 1941. Naquele ano de 1951, após várias mudanças no setor dianteiro, eis que é composto o seguinte ataque: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário. Essa arrasadora linha de frente marcaria para sempre a história do clube, pois no transcorrer daquele Campeonato Paulista assinalaria 103 gols. Marca sem precedentes desde que se iniciara o profissionalismo em 1937. Carbone marcou 30 gols; Baltazar, 25; Cláudio, 18; Luizinho, 13 e Mário, 1. Como naquela época disputavam-se os campeonatos por pontos corridos, a vantagem do Corinthians sobre seus adversários permitiu-lhe sagrar-se campeão com duas rodadas de antecedência. Em 28 jogos somou 24 vitórias, com um saldo favorável de 66 gols. Em 1952, o clube novamente seria campeão. Em sua última partida desse campeonato, o São Paulo vencia o primeiro tempo por 2 X 0. Mauro Ramos marcava Baltazar impedindo as melhores jogadas de ataque. No intervalo o técnico inverteu as posições de Baltazar e Luizinho, passando o zagueiro do São Paulo a marcar Luizinho. Foi o suficiente para o ataque do Timão deslanchar, resultado: 3 X 2 para o Corinthians.

Dia 11 de junho de 1994. Dia de festa no Parque São Jorge. Por iniciativa do Jornal do Corinthians, dirigido pelo jornalista Romano Neto, com total e decidido apoio do presidente Alberto Dualib, nos jardins do Parque era erigido um busto em homenagem àquele que tanto lutou e tantas glórias conquistou com a camisa do clube. Foi um momento emocionante na história da agremiação, pois ficava imortalizada em bronze a figura daquele que tanta paixão e tanto amor demonstrara pelas cores do seu Corinthians. Tão respeitado era Luizinho, como homem e como profissional, que não só ex-companheiros de clube compareceram, mas até jogadores de clubes adversários. Ao retirar a bandeira do Corinthians que envolvia o busto, Luizinho a beijou e chorou copiosamente. Cena comovente que jamais será esquecida pelas pessoas que estiveram presentes àquele merecido ato de gratidão.

O presidente Alberto Dualib encerrou aquele memorável acontecimento com as seguintes palavras:

“Luizinho escreveu uma das mais lindas páginas da história do Corinthians. O Pequeno Polegar, como era conhecido, dedicou grande parte da sua vida à camisa alvinegra com muito amor. Hoje, muita gente está lembrando das suas grandes jogadas, dos seus dribles fantásticos. Ele foi o símbolo de um jogador que representou uma grande época para o Corinthians e serve de exemplo para as novas gerações. Com o busto dele, que plantamos nos jardins do clube, fizemos justiça, pois a paixão que nutrimos por ele é muito grande e estará para sempre no coração de todos nós.”

Voltando ao início, em 17 de janeiro de 1998, morria Luiz Trochillo, o inesquecível Luizinho do Corinthians. Talvez com ele tenha morrido uma fase que jamais voltará ao nosso futebol: a fase da arte, da ética e do amor à camisa. A fase em que o jogador iniciava e terminava sua carreira num mesmo clube. A época em que um craque acharia a coisa mais estranha vestir uma camisa de coloração diferente. Os bons tempos em que “o profissional” assinava um contrato em branco e dizia à diretoria: “paguem aquilo que acharem razoável, aquilo que for possível”. Nos dias atuais o que impera é o amor ao dinheiro, o jogador defende o clube que lhe pagar mais. Nada de estranhável, diriam alguns. Afinal, vivemos numa época de absoluto profissionalismo. Estamos esquecendo que os clubes foram transformados em empresas? Mas…e o torcedor? Como fica esse pobre indivíduo? Qual o seu papel diante de tanta volubilidade, de tanto mercenarismo? Afinal, para que e para quem está torcendo? Para clubes, para um amontoados de jogadores ou para marcas e logotipos de empresas? Enquanto tais perguntas não obtiverem respostas, deixem-nos curtir essa imensa saudade do Pequeno Polegar. Esse vazio, essa lacuna que talvez jamais será preenchida.

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