Atualização da norma amplia a responsabilidade das empresas sobre riscos psicossociais e impulsiona uma nova abordagem de liderança, que integra cultura, comportamento e consciência como fatores estratégicos de produtividade e resultado
O mês de maio marca um divisor de águas na forma como as empresas brasileiras tratam os riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Isso porque entrou em vigor nesta terça-feira, dia 26, a atualização da NR-1.
A partir de agora, fatores antes tratados de forma indireta passam a exigir gestão estruturada, monitoramento contínuo e integração entre áreas estratégicas.
A mudança ocorre em um cenário que já preocupa especialistas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, transtornos como ansiedade e depressão geram uma perda global de produtividade estimada em mais de US$ 1 trilhão por ano.
No Brasil, dados do Instituto Nacional do Seguro Social apontam crescimento nos afastamentos relacionados à saúde mental, impactando diretamente a operação das empresas.
Na prática, a NR-1 amplia a responsabilidade das organizações sobre fatores como o impacto do ambiente na saúde dos trabalhadores, a gestão de riscos psicossociais e a necessidade de acompanhamento contínuo, exigindo uma atuação mais integrada entre RH, Segurança do Trabalho e liderança.
“Isso exige uma gestão mais estruturada e menos reativa. A partir de agora, os riscos psicossociais deixam de ser secundários e passam a ser parte central da gestão”, destaca Ademar Galelli, doutor em Engenharia de Produção, professor universitário e especialista em Qualidade e Produtividade.
Conflitos internos, alta rotatividade, líderes e funcionários sobrecarregados e equipes desengajadas deixam de ser apenas desafios operacionais e passam a representar risco direto ao negócio.
“A NR-1 marca uma mudança relevante na forma como as empresas conduzem sua gestão. Mais do que cumprir exigências legais, será necessário estruturar liderança e cultura organizacional de forma consistente, transformando fatores como clima, comportamento e relações internas em elementos mensuráveis e gerenciáveis. O grande desafio é como fazer isso e dar continuidade”, observa.
PROBLEMA QUE NÃO SE VÊ
Segundo Silvana Hübner Guedes, doutora em Administração, professora universitária e facilitadora do autoconhecimento, muitas organizações ainda atuam tratando sintomas, sem enfrentar as causas estruturais dos problemas internos.
Os sinais são claros: conflitos recorrentes, alta rotatividade, baixo engajamento, sobrecarga de lideranças e ambientes emocionalmente desgastados.
Para ela, a mudança exigida pela NR-1 passa também por um nível mais profundo de gestão, ainda pouco explorado pelas empresas.
“Quando falamos em riscos psicossociais, estamos falando de comportamento humano. E comportamento não se transforma apenas com processo, se transforma com consciência.”
A especialista destaca que a aplicação da espiritualidade nas organizações, tema que foi base de sua tese de doutorado, não está relacionada à religião, mas à ampliação da consciência na forma de liderar, decidir e se relacionar dentro das empresas.
“O estudo validou que ambientes com maior equilíbrio emocional e consciência de liderança apresentam aumento de produtividade, redução de conflitos e impacto direto na sustentabilidade dos resultados.”
Segundo Silvana, empresas que começam a integrar esse nível de consciência à gestão não apenas atendem à norma, mas evoluem em maturidade organizacional.
“Norma não se sustenta sem cultura. E cultura não se sustenta sem uma liderança consciente. Quando isso acontece, a empresa deixa de reagir aos problemas e passa a estruturar o ambiente onde eles não se repetem.”
DA NORMA À PRÁTICA
Para Ademar Galelli, a NR-1 não cria novos problemas dentro das empresas, ela torna visível aquilo que já existe. “Quando falamos de riscos psicossociais, estamos falando de liderança, ambiente e cultura. E isso não se resolve com documento, se resolve com gestão estruturada.”
Integrar diagnóstico, estratégia e execução passa a ser essencial para empresas que desejam não apenas atender à norma, mas transformar a gestão de forma consistente.
“O desafio não está apenas em entender a norma, mas em transformar informação em prática e dados em evidência para a tomada de decisão. É isso que sustentará a gestão no curto, médio e longo prazo”, concluem os especialistas.
Os especialistas finalizam destacando que, em um cenário no qual o crescimento sustentável, impulsionado por avanços tecnológicos marcantes e transformações geracionais disruptivas, depende cada vez mais dos líderes empresariais serem qualificados para edificar e consolidar ambientes laborais que priorizam a qualidade das relações humanas, nos quais o ser humano volta a ser integrado às questões de criatividade, desempenho e competitividade das organizações empresariais.

