Duda Santos tem visto sonhos virarem realidade ao longo do trabalho em “A Nobreza do Amor”, da Globo. A atriz, que cresceu desejando personagens capazes de refletir a beleza e a complexidade da cultura negra, agora se vê diante de uma responsabilidade histórica: interpretar uma princesa africana em horário nobre. Para ela, não se trata apenas de um papel, mas de um gesto político, afetivo e um mergulho na ancestralidade e na representatividade que faltaram por tanto tempo na teledramaturgia brasileira. “Estou profundamente honrada e emocionada com a oportunidade de dar vida a essa personagem. Interpretar uma princesa africana em horário nobre, em uma novela que valoriza nossa ancestralidade e abre espaço para discutir questões essenciais, como identidade e representatividade, é uma responsabilidade imensa, um grande privilégio. Cresci sonhando com personagens que refletissem a força, a beleza e a complexidade da nossa cultura”, aponta.
Na história das seis, Duda vive Alika, a Princesa e futura Rainha de Batanga. Ela foge para o Brasil e se dedica à missão de retomar Batanga e conduzi-la a tempos de paz e prosperidade. Refugia-se com a mãe na casa de seu tio José/Zambi, papel de Bukassa Kabengele, na cidade de Barro Preto, no interior do Rio Grande do Norte, e assume a identidade de Lúcia dos Santos. Lá, conhece Tonho, de Ronald Sotto, um jovem trabalhador de engenho com forte senso de justiça. “Essa produção é um sonho coletivo e muito esperado por todos nós. Estou muito feliz de poder contar uma história como essa. Muito obrigada a todas as minhas ancestrais que deixaram esse caminho florir para que eu pudesse contar essa história hoje. Cresci esperando esse momento chegar e estou muito feliz de poder ser um pedacinho disso”, valoriza.
P – Pouco menos de um ano após o fim de “Garota do Momento”, você retorna ao ar como protagonista de “A Nobreza do Amor”. O que esse trabalho provocou em você para voltar à tevê tão rápido?
R – Foi o papel que mais me fez questionar minha existência. Interpretar uma princesa em um reino construído para ela me botou para pensar sobre como seria um mundo feito para mim, para eu reinar. É cruel perceber o que o racismo deixou para gente, e esse trabalho me obrigou a refletir sobre isso diariamente.
P – Como foi seu processo de construção para viver a Princesa Alika?
R – Assisti a “Pantera Negra” e a “Mulher Rei. Eles foram fundamentais. São exercícios diários para não apequenar nossos sentimentos. Quando vejo essas narrativas, penso em como seria viver em um mundo que reconhece nossa potência. Isso me fortalece como atriz e como mulher preta.
P – Alika, sua personagem, é uma princesa que não conhece o racismo até vivê-lo. Como foi construir essa perspectiva?
R – Alika não é alienada, mas ela não teve contato com o racismo até experimentar isso na vida. Esse choque é muito bonito de trabalhar, porque mostra a inocência de quem cresce em um espaço protegido e, de repente, se depara com a realidade.
P – A trama traz debates sobre representatividade em diversos pontos do texto. Como tem sido mergulhar nessas discussões na tevê aberta?
R – Acho que essa novela é muito potente nesse lugar. É a primeira vez que falamos e vemos uma África nobre, bonita, rica, fabulosa na televisão. Isso já teria resolvido muitos dos nossos problemas se tivesse acontecido antes. Representatividade é essencial: só podemos acreditar que somos algo quando vemos isso acontecendo.
P – Como assim?
R – Tem sido um presente reviver minha cultura e refletir sobre o mundo a partir dela. Eu quero colocar na mente das pessoas a África que nos pertence, que é linda e nobre. Esse resgate é coletivo e muito importante.
P – Após “Renascer”, você tem emendado uma série de protagonistas no vídeo. De que forma você analisa esse momento atual na carreira?
R – Estou muito feliz por ter feito papéis e contado histórias que acredito muito. Quando olho para minha trajetória, eu só tinha sonho, não tinha nada. Hoje, poder compartilhar meu trabalho e perceber que confiam em mim é uma felicidade enorme. Contar histórias que acredito é o maior presente que um ator pode receber. Essa novela, por exemplo, é a realização de um sonho.
P – Por quê?
R – Meu sonho sempre foi ser princesa, e agora eu vivo isso. Mas não é só meu sonho, é um sonho coletivo. Essa novela é feita com muito amor e dedicação, e eu espero que o público sinta isso. É uma realização que vai além de mim.

