As eleições de 2026 colocam novamente a política no centro das conversas de famílias, comunidades e escolas. Para crianças e adolescentes, no entanto, falar sobre eleições não precisa significar discutir candidatos ou partidos: o tema pode ser uma oportunidade para compreender, de maneira adequada a cada faixa etária, conceitos como regras de convivência, direitos e deveres, participação, respeito às diferenças, tomada de decisões e funcionamento das instituições democráticas.
A discussão ganha ainda mais relevância neste ano após a sanção da Lei nº 15.468/2026, que incluiu a educação política e os direitos da cidadania como componente curricular obrigatório da educação básica. A legislação determina que o conteúdo seja trabalhado no âmbito do estudo da realidade social e política, enquanto a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) já estabelece, entre seus princípios, a formação para o exercício da cidadania, o pensamento crítico, a argumentação, a cooperação, a empatia, a responsabilidade e o respeito ao outro.
EDUCAÇÃO OU POSIÇÃO POLÍTICA?
A presença da política no ambiente escolar gera dúvidas entre algumas famílias, especialmente em relação à visão de que professores, mesmo que sem intenção, podem influenciar a formação e a opinião dos estudantes.
Na opinião do professor Rogério Piccinin, a escola deve apresentar conhecimentos, conceitos e diferentes perspectivas, estimulando os estudantes a construir seus próprios posicionamentos com base em informações e argumentos.
“Educação política não significa ensinar ao estudante em quem ele deve votar ou qual posição política deve defender. Significa oferecer ferramentas para que ele compreenda como a sociedade se organiza, quais são seus direitos e deveres, como funcionam as instituições e como diferentes pontos de vista podem ser debatidos. O papel da escola é formar cidadãos capazes de pensar criticamente, e não reproduzir uma determinada visão política”, defende Piccinin.
A própria BNCC estabelece que a educação básica deve contribuir para a formação humana integral e para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. Entre as competências gerais previstas estão o exercício da argumentação com base em fatos, dados e informações confiáveis, a valorização da diversidade de saberes e opiniões, e o desenvolvimento da responsabilidade, da autonomia, da cooperação e da cidadania.
Com a nova legislação, a educação política passa a ter ainda mais respaldo formal no currículo. Para evitar vieses, na opinião do docente da Aubrick, a abordagem pode priorizar conteúdos verificáveis, funcionamento das instituições, direitos e deveres, processos eleitorais, análise de fontes e diferentes perspectivas sobre questões públicas.
“O professor deve atuar como mediador do debate, estabelecendo regras de convivência e garantindo espaço para a escuta e a argumentação, sem transformar a aula em espaço de convencimento político”. Nesse cenário, não se deve evitar assuntos que envolvam política, mas justamente criar condições para que ele seja tratado de forma pedagógica. “Quando o estudante aprende a diferenciar fato de opinião, identificar fontes confiáveis, escutar argumentos diferentes dos seus e sustentar seu ponto de vista com respeito, está desenvolvendo competências fundamentais para a vida em uma democracia”, acrescenta Piccinin.
EDUCAÇÃO INFANTIL
Na Educação Infantil, falar de política não exige conceitos abstratos sobre partidos ou eleições: a formação democrática começa em experiências cotidianas, como esperar a vez, respeitar combinados, ouvir o colega e negociar conflitos. Segundo a professora Adriana Schimidt, ao participar da construção de regras coletivas, a criança já vivencia princípios importantes para a vida em sociedade, sem precisar entender o funcionamento de uma eleição.
Na escola, rodas de conversa, assembleias, construção coletiva de regras, contação de histórias, dramatizações e jogos cooperativos trabalham esses valores de forma lúdica, mostrando que viver em grupo envolve direitos, responsabilidades, escuta e respeito às diferenças. Situações concretas – votações simbólicas, definição de regras de brincadeiras, resolução de conflitos – tornam conceitos como respeito, escolha e participação significativos.
Em casa, as famílias podem propor pequenas votações (escolher brincadeiras ou histórias), usar jogos de tabuleiro para trabalhar regras e turnos e conversar sobre soluções justas para conflitos do dia a dia.
ENSINO FUNDAMENTAL
No Ensino Fundamental, os estudantes já conseguem compreender conceitos políticos concretos, como democracia, Constituição, direitos e deveres, eleições, poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e participação social, sempre conforme a faixa etária.
A BNCC prevê o desenvolvimento da participação social, da cidadania e da argumentação e, nos anos finais, destaca a autonomia e o acesso crítico a diferentes fontes de informação.
Para Rogério Piccinin, a vida escolar pode ser um laboratório de participação democrática: o aluno percebe que sua opinião tem valor, mas precisa considerar a dos demais. Estratégias incluem grêmios e representação estudantil, eleições de representantes de turma, assembleias e consultas sobre projetos da escola.
Eleições simuladas – em que estudantes criam propostas, respondem a perguntas e votam -permitem discutir representação, debate de ideias, maioria e responsabilidade. Segundo Piccinin, mais do que ensinar o funcionamento de uma urna, a eleição simulada desenvolve cooperação, argumentação, escuta e a compreensão de que participar significa ouvir, aceitar resultados e dialogar com quem pensa diferente.


