Saúde pública na UTI

Sr. redator:
“Primeiro centro de tratamento de esclerose múltipla do País. Maior cadastro de doadores de medula óssea. Hemocentro que abastece nove hospitais. Referência em atendimento de emergência, ortopedia, pediatria e serviços de alta complexidade, como neurocirurgia e transplante. Núcleo de ensino com relevantes pesquisas técnico-científicas.

Esse rápido perfil retrataria à perfeição  um complexo hospitalar de primeiro mundo. Mas esse é lado bom da moeda. Na realidade, o cenário revela a enorme capacidade da Santa Casa de São Paulo em driblar dificuldades e obter significativos resultados num Brasil que nunca deu à saúde a prioridade devida e nem se preocupou em assegurar a igualdade de qualidade no atendimento aos pacientes da rede pública.

Aliás, a percepção da precariedade da saúde pública pela sociedade foi novamente confirmada por pesquisa realizada pelo Datafolha, que quis ouvir a opinião dos maiores interessados na questão, que são os cidadãos.

Embora não traga nenhuma surpresa, as conclusões são, no mínimo, preocupantes: 63% atribuem nota de zero a quatro à saúde como um todo e 51% assim classificam o atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Destaque-se que 94% dos entrevistados buscaram atendimento no SUS nos últimos dois anos.

Embora restrita aos paulistas, os números da pesquisa apenas confirmam a percepção dos médicos, dos profissionais da saúde e dos pacientes e evidencia a fragilidade das políticas públicas para a área e os gargalos de gestão. A nota do CFM é mais contundente, ao afirmar que tais fatores denunciam o descompromisso dos gestores, especialmente em âmbito federal, para com a rede pública de saúde, como revelado em diferentes análises do Tribunal de Contas da União e da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

Um dos mais graves problemas apontados é a dificuldade de acesso a prontos-socorros, situação inaceitável que se repete nas consultas, cirurgias e exames diagnósticos, havendo pacientes que esperam há mais de um ano por atendimento em consultório, por exemplo. No quesito internação, 50% reclamam de demora excessiva – o que não é de estranhar, pois 13 mil leitos foram desativados nos últimos anos.

Nesse cenário de precariedade, quando foi noticiado o fechamento do pronto-atendimento da Santa Casa de São Paulo a informação caiu como uma bomba por trazer à tona a ameaça que paira sobre quase todas as instituições de igual importância do País: a insustentável defasagem entre os repasses que recebem do SUS e os custos dos serviços que prestam gratuitamente, como entidades filantrópicas, o que gera crescentes déficits e risco de corte de entrega de medicamentos e outros produtos médicos pelos fornecedores.

A falta de recursos para pagar encomendas de materiais básicos foi a causa que levou  à suspensão do pronto-atendimento da Santa Casa, instituição que há mais de 450 anos está em funcionamento.

Aliás, prestando serviços que podem ser classificados, sem exagero, como inestimáveis: 1,6 milhão de atendimentos ambulatoriais, 2 milhões de atendimentos de emergência,  49 mil cirurgias e 6,2 milhões de exames.

É cada vez mais urgente a revisão da política pública de saúde, para evitar a repetição da crise que o CFM, em nome de 400 mil médicos, chama de ‘mais um episódio dramático na história da saúde pública brasileira’. Crise que pode prejudicar milhões de pessoas por ano, incluindo aqueles que viajam de rincões remotos em busca de tratamento adequado oferecido pelos hospitais filantrópicos.”

Ruy Martins
Altenfelder Silva

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