O país do futuro que não chega

Sr. redator:
“Como todo menino brasileiro, sempre gostei de futebol e principalmente de Copa do Mundo. Colecionava as figurinhas um tanto toscas com as fotos dos jogadores, as quais acompanhavam as embalagens de chiclete.

A Copa que mais curti, acredito que cada um tenha a sua preferida, foi a de 82 na Espanha. Pela primeira vez pude torcer com os amigos fora de casa, comendo pipoca e carregando minha bandeira improvisada. Como sou palmeirense, pintei a faixa branca de amarelo. Valia de tudo para a brincadeira estar completa. Valdir Peres, Oscar, Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico e Éder, só para citar alguns, eram os grandes ídolos e Paolo Rossi, o grande vilão.

Também sempre sonhava com uma Copa no Brasil, o que naquela época era algo impossível. Agora, serão os sobrinhos e filhos que poderão curtir a competição e aproveitar o tão desejado torneio em solo tupiniquim. Opa, mas espere um pouco.

Tão desejado? Escândalos, superfaturamento, corrupção, desvio de recursos, atraso nas obras e os protestos do ano passado conseguiram tirar meu sonho de menino. Pesquisa realizada pelo Datafolha demonstra que a aprovação caiu de 79% para 52%, confirmando que não estou sozinho.

Como professor e executivo tinha esperança que os grandes eventos poderiam gerar crescimento econômico sustentável pelo menos até o final da década, levando de vez nosso título de país do futuro. Ledo engano, comprovado nas manchetes e notícias econômicas. Ao contrário, sua aproximação, aliada ao Carnaval tardio e as eleições para governador e presidente, em novembro, tem trazido extrema preocupação aos empresários e colaboradores, os quais terão que trabalhar muito para tentar ao menos igualar os resultados do ano passado.

Tomemos São Paulo como exemplo. Feriados nos dias 12, 17, 19, 23 e 26 de junho ou 5ª, 3ª, 5ª, 2ª e 5ª, sem mencionar as pontes e ressacas pós-feriados. O mesmo ocorrerá nas demais cidades-sede, cujas datas se repetirão apenas nos jogos da seleção canarinho. Será literalmente um mês perdido, no qual agendar reuniões com fornecedores, visitar clientes, viajar a negócios e faturar mercadorias será praticamente impossível, excetuando-se os produtos de primeira necessidade tais como linguiça, picanha, carvão, cerveja e pipoca, imprescindíveis para manter a turma animada.

Parodiando a fábula da cigarra e da formiga, as empresas e os empresários terão que trabalhar duro, aguardando o inverno chegar. Enquanto isso, as cigarras continuarão cantando longe de Brasília em seus currais eleitorais.

Com esta fábula adaptada à realidade brasileira, as notícias dos elefantes brancos em plena Amazônia ou no Pantanal e o legado que não será legado, torna-se cada vez mais difícil encontrar motivação e alegria para que esta seja a melhor Copa de todos os tempos, alardeada pelos patrocinadores da seleção em suas propagandas ufanistas.”

Marcos Morita

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