O lado ‘B’ do santo

Sr. redator:
“Depois de Madre Paulina e Frei Galvão, o Brasil passou a ter um terceiro santo canonizado: José de Anchieta. A vida de Anchieta traz consigo diversos questionamentos, muitas vezes desconhecidos do público geral.

Nossos livros escolares de história, sempre trazem uma versão oficial da vida deste padre como catequizador e educador dos povos indígenas brasileiros. Mas, basta uma pesquisa um pouco mais profunda nos livros de grandes historiadores brasileiros, para se descobrir o lado ‘B’ desta história.

José de Anchieta nasceu em 1534 na Espanha e tendo ingressado na ordem Jesuíta da Companhia de Jesus, chega ao Brasil aos 19 anos de idade, pouco tempo depois de padre Manoel da Nóbrega que havia vindo junto com a comitiva do primeiro governador geral, Tomé de Souza.

Já no Brasil, Anchieta segue o projeto jesuítico de colonização proposto por Nobrega em 1558. Este projeto permitia a escravização dos indígenas e impunha às tribos ‘pacificadas’ práticas como a de andarem vestidos, terem apenas uma mulher, fazerem-se cristãos e colaborarem com os portugueses nas guerras contra seus inimigos. Este projeto deu autoridade ao então governador Mem de Sá para atacar e destruir cerca de 300 aldeias da costa brasileira no século XVI.

Anchieta em sua ‘informação dos primeiros aldeamentos’ registra que a população indígena dos arredores da Bahia foi reduzida de 80 mil pessoas a menos de 10 mil.  É também de Anchieta os 2 mil versos de louvor a Mem de Sá, no poema ‘De Gestis Mendi de Saa’, escritos em 1560.

Anchieta, à frente de uma missão onde haviam juntado à revelia índios oriundos de tribos diversas, separando as crianças dos pais com o intuito de educá-las na santa fé católica, servia também como arregimentador de tropas indígenas a serviço da Coroa Portuguesa.

Darcy Ribeiro no livro ‘O Povo Brasileiro’, registra um episódio ocorrido em Peruíbe, quando Anchieta, fazendo-se passar por um pai milagroso, corria de um lado para outro incentivando os índios a lutarem pelos portugueses, atribuindo-se a Anchieta nesta ocasião ter salvo São Paulo e a própria colonização portuguesa.

Após anos e anos, os Jesuítas chegam à conclusão de que não haviam conseguido salvar as almas e nem as vidas dos índios, ceifados pelas guerras, pela escravidão e por doenças, muitas das quais trazidas involuntariamente pelos próprios padres.
Por fim, resta-nos relatar o episódio em que Anchieta, ao assistir ao enforcamento do calvinista Jean Jacques Le Balleur, um dos huguenotes sentenciados por Villegaignon após terem celebrado a primeira santa ceia protestante em território brasileiro, teria se apressado a colaborar com o carrasco no cumprimento de seu dever.

Anchieta está mais para uma homem como todos nós, com seus dilemas, suas falhas e, não se pode esquecer, agindo dentro de um contexto histórico-cultural do século XVI, envolvido em questões políticas diferenciadas e tentando se relacionar com um povo indígena, do qual pouco se entendia.”

Lidice Meyer Pinto Ribeiro

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