Cego é quem não quer ver

Nos próximos dias, o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, preso no Presídio da Papuda, em regime semi-aberto, volta ao trabalho, mesmo sem ter cumprido um sexto de sua pena. Ele, que foi condenado no processo do “mensalão”, poderá sair durante o dia e voltar ao presídio à noite. A autorização foi dada pela maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Os ministros Celso de Melo e Joaquim Barbosa foram contra.

Formado em Direito pela PUC, Dirceu irá atuar em um escritório de advocacia.

A mesma decisão também beneficiou o ex-tesoureiro de campanha do PT, Delúbio Soares, condenado no mesmo processo por corrupção ativa.

Assim, ele poderá voltar a trabalhar na Central Única dos Trabalhadores. O mais estranho nisso tudo é que, se os crimes praticados pelos dois lhes levaram à cadeia, para que servissem de exemplo, como agora a mesma Justiça lhes oferece um benefício?

Os ministros devem partir do pressuposto que eles não cometerão os mesmos crimes, um como advogado e o outro, quem sabe, cuidando das finanças da CUT. Será que é possível ter tanta certeza disso? Talvez fosse melhor esperar mais. Porém, se a decisão partiu da mais alta corte de justiça do Brasil, quem somos nós para contrariar.

Agora, se essa opção foi possível a eles, o que pensam os presos comuns ou os de alta periculosidade, como traficantes ou homicidas? Que a impunidade continua fortalecida e sempre há uma maneira de se obter privilégios.

E quando isso é real para uns e não para outros, o que os condenados com maior poder buscam e conseguem? Celulares, televisores, geladeiras, drogas, visitas íntimas e muito mais. Diante disso, alguém poderá dizer ser impossível comparar os criminosos e os tipos de crime. Mas, e perante a lei, o que os difere? As posses, os carros, a formação acadêmica?

O que está em discussão aqui é a falta de respeito com o cidadão de bem, o trabalhador comum, que tenta alcançar uma qualidade de vida melhor, contudo é aviltado em suas conquistas, seja por bandidos armados ou de colarinho branco.

Onde existe a impunidade, a falta de infraestrutura e de investimento no sistema de educação como um todo, há os crimes. Por isso, não foi por acaso nós vermos o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, confirmar o crescimento do número de roubos no Estado. O estranho foi ele afirmar que não sabia ao certo o motivo do aumento da violência. Chegou a dizer, inclusive, que as causas sociais não justificam a elevação dos índices de criminalidade.

É incrível observar as pessoas designadas para nos proteger não conseguirem enxergar um palmo à frente de seus umbigos. Cuidar da segurança, somente, é como “enxugar gelo”, pois vemos, todos os dias, crianças, adolescentes e, às vezes, famílias inteiras serem destruídas pelo crack. O número de moradores de rua não para de crescer e ainda há muitos jovens fora da escola. A partir dessa realidade, do que adianta prender e abarrotar os presídios, já que não se ensina a transformar pelo menos uma parte dos presos em cidadãos capazes de voltar à sociedade sem serem julgados de maneira preconceituosa.

A lição de casa cabe a todos. Se os “mensaleiros” são soltos, alguns presos têm direito a regalias, os crimes aumentam e muitas pessoas continuam passando fome, sem trabalho, saúde e educação digna, as questões devem ser analisadas de maneira mais ampla. Será que só nós vemos isso? Ou quem vê finge ser cego?

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