Bairro operário sofre grandes transformações

Bairro operário sofre grandes transformações

Do início da década de 30 até meados da década de 70 podemos afirmar ter sido o Tatuapé um bairro operário. As centenas de indústrias instaladas em seu território fizeram subir a um alto patamar seu índice populacional. Entre as décadas de 50 e 60, o Tatuapé chegou a ser um dos bairros mais populosos do Município; ressaltando, no entanto, que sua área era significativamente maior do que a atual. Como já salientamos, em sua maioria a população era constituída de trabalhadores braçais. O comércio e o setor de ser­viços sofreu na época grande expansão, tendo em vista atender a essa enorme massa operária.

Aumentou de forma inusitada a quantidade de empórios, padarias, bares, açougues, quitandas e farmácias. Como era de se esperar, as autoridades municipais e estaduais so­correram a região implantando nela a infra-estrutura necessária para a sustentação daquele inesperado surto industrial.  Em poucos anos estenderam-se por todos os rincões as redes de água e esgotos. Simultaneamente, fincavam-se postes com seus respectivos transforma­dores, deles partindo os cabos de energia elétrica e os fios de iluminação. Em curto intervalo de tempo, também foram asfal­tadas quase todas as ruas. Acompa­nhando a inesperada situação, as imobi­liárias puseram-se a campo vendendo inúmeras áreas, cujos lotes  eram  comprados à prestação pelos operários. Após a aquisição da estreita faixa de ter­ra, normalmente de cinco metros de frente por 25 de fundo, essas famílias providenciavam a construção de uma pequena casa constituída de sala, quarto, cozinha e banheiro. No único quarto da tosca moradia dormiam todos, o casal e a numerosa prole. Com o passar do tempo,  mercê de uma economia espartana, sobravam alguns trocados que imediatamente trans­formavam-se num segundo cômodo e em relativa folga em comparação com o aperto inicial.  Na Cidade Mãe do Céu, nas proximidades do Cemitério da Quarta Parada, para facilitar as vendas, os loteadores ofereceram du­ran­te certo tempo, juntamente com o terreno, cinco mil tijolos para início da construção. Nessa época, surgiu o Conjunto Acrópole, com suas quatrocentas casas térreas, na parte alta da Vila Gomes Cardim, entre as ruas Serra do Japi, Emília Marengo, Itapura e Itapeti. Argutos empreen­dedores tatua­peenses instalaram no bairro vários depósitos de material de construção, entre eles: Craveiro na Celso Garcia, Macalci e Depósito Guarani, na Praça Silvio Romero.

Durante mais de quatro décadas o Tatuapé manteve a condição de bairro proletário. Por todos os lados ouvia-se o trac-trac dos teares, os ruídos ensur­decedores das esmerilhadoras, os impac­tos secos das prensas e as pancadas nas chapas nas caldeirarias. O ininterrupto exalar da fumaça das chaminés era prova cabal de que no interior daquelas unidades produtivas mantinha-se aceso o fogo sagrado do trabalho. Por trás dos tapumes de pequenas oficinas, explodiam flashes provenientes das pontas dos eletrodos das soldas elétricas.  Caminhões começavam a ganhar os espaços do bairro: uns chegando com matéria-prima para ser manufaturada; outros se afastando, levando sobre suas carrocerias os novos produtos “Made in Tatuapé”.

Todas as manhãs as ruas do bairro eram tomadas por homens e mulheres, que a passo ligeiro, encaminhavam-se para seus locais de trabalho. Nos fins de tarde, nova romaria, desta vez em direção aos seus lares. Mesmo cansadas pela exaustiva jornada, mulheres casadas, ao chegarem em casa, ainda tinham que tratar das lidas do lar e preparar comida para seus maridos e filhos. As mais jovens normalmente ajudavam suas mães nas tarefas caseiras. Entre os homens, uns ainda gastavam algum tempo batendo papo e bebendo nos muitos bares existentes; outros, não tinham tempo a perder, dirigiam-se para suas casas a toda pressa e, após ligeiro banho e ingestão de algum alimento, corriam para as escolas noturnas. Durante muitos anos ainda subsistiu o meio dia de trabalho dos sábados. Lei promulgada em meados de 40 eximiu o trabalhador da necessidade dessa meia jornada, que no entanto devia obrigatoriamente ser compensada por uma hora a mais de trabalho nos dias normais. Domingo, o único dia diferente para aqueles homens e mulheres. Estas gastavam toda a manhã na ida à missa e na preparação de um almoço mais elaborado. A parte da tarde era gasta com visitas aos parentes ou descanso. Os homens assistiam a uma partida ou duas do seu clube varzeano preferido e, após o almoço, dormiam parte da tarde. Para os solteiros de ambos os sexos sobrava uma sessão de cinema ou o indefectível “footing” das noites do sábado e do domingo. Uma vez por ano acontecia algo diferente: as costumeiras quermesses das várias paróquias do Tatuapé. Ao som das bandinhas constituídas por meia dúzia de músicos, famílias inteiras passeavam sob o teto de bandeirolas que emolduravam o recinto da festa. Para os solteiros mais uma possibilidade de namoro e de descoberta da cara metade. Essa, em traços rápidos, a vida daquela gente simples, honesta e trabalhadora que dominou durante muitos anos o Tatuapé e região.

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